Maioria dos jovens portugueses é exposta a conteúdos nocivos online sem os procurar, revela estudo

A maioria dos jovens portugueses é exposta a conteúdos prejudiciais na internet de forma involuntária, com impactos relevantes no bem-estar psicológico. A conclusão é de um estudo inédito realizado pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, que analisou as experiências online de 2.071 jovens com idades entre os 10 e os 21 anos.

De acordo com a investigação, mais de metade dos inquiridos teve contacto, nos seis meses anteriores ao inquérito, com discursos de ódio, violência ou conteúdos associados ao consumo de drogas, muitas vezes sem procurar ativamente esse tipo de material. Cerca de 47,2% referiram ter testemunhado mensagens de ódio, 45,3% visualizaram conteúdos violentos e quase 40% tiveram contacto com informação relacionada com drogas.

O estudo identifica ainda uma exposição significativa a conteúdos sensíveis ligados à saúde mental. Mais de um terço dos jovens afirmou ter visto informação sobre automutilação e cerca de 15% contactou com conteúdos que descreviam métodos de suicídio. A maioria dos que relataram estas experiências indicou não ter procurado esse tipo de informação e referiu ter ficado emocionalmente perturbada.

Também os conteúdos alimentares nocivos e sexualizados surgem com elevada frequência, embora com diferenças entre géneros. As raparigas são mais expostas a mensagens que promovem comportamentos alimentares pouco saudáveis, enquanto os rapazes contactam mais frequentemente com conteúdos de natureza sexual.

O cyberbullying assume igualmente um peso relevante. Cerca de 22% dos jovens relataram comentários ofensivos dirigidos a si, 14% referiram a circulação de rumores online e quase 12% descreveram situações de assédio digital. Em mais de 10% dos casos, foi partilhada informação privada sem consentimento.

Os investigadores identificaram grupos particularmente vulneráveis, nomeadamente jovens mais velhos e provenientes de contextos socioeconómicos desfavorecidos, que apresentam níveis mais elevados de exposição tanto ao cyberbullying como a outros conteúdos nocivos.

Do ponto de vista psicológico, os dados apontam para uma associação clara entre estas experiências online e pior saúde mental, incluindo maior prevalência de pensamentos suicidas, sentimentos intensos de vergonha e menor satisfação com a vida. O cyberbullying surge como o fator mais diretamente associado a consequências graves, estando também relacionado com maior consumo de álcool e pior qualidade do sono.

Em sentido oposto, o estudo destaca a existência de fatores de proteção. Relações positivas com amigos, comunicação eficaz no seio familiar e ambientes escolares inclusivos contribuem para mitigar os efeitos negativos da exposição digital, protegendo o bem-estar emocional e o desempenho académico.

Apesar da elevada exposição a conteúdos nocivos, os investigadores sublinham que, após controlo do apoio familiar e escolar, não se verificou uma relação direta entre esses conteúdos e sentimentos de solidão ou pior desempenho escolar.

A investigação confirma ainda que os jovens passam mais tempo online do que offline nos períodos de lazer, sendo as redes sociais a principal atividade. Quase metade dos inquiridos afirmou passar mais de três horas por dia nestas plataformas.

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