Comportamento homossexual nos primatas tem origem ancestral e múltiplas funções sociais

Um estudo de grande escala publicado na revista Nature Ecology & Evolution conclui que o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo em primatas não humanos tem raízes evolutivas profundas e está associado a múltiplos fatores ambientais e sociais.

De acordo com a investigação, comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo já foram documentados em mais de 1.500 espécies animais. No caso dos primatas, os investigadores analisaram dados relativos a 491 espécies não humanas, tendo identificado este tipo de comportamento em 59 delas, incluindo lémures, macacos das Américas, África e Ásia, bem como grandes símios.

Em declarações à agência France-Presse, Vincent Savolainen, autor principal do estudo, sublinhou que a diversidade de comportamentos sexuais é comum na natureza e desempenha um papel tão relevante como outras funções essenciais à sobrevivência, como o cuidado da descendência, a defesa contra predadores ou a procura de alimento.

Durante muito tempo, estes comportamentos foram encarados como um “paradoxo darwiniano”, por aparentarem não contribuir diretamente para a reprodução. No entanto, estudos mais recentes indicam que podem ter uma componente hereditária e conferir vantagens evolutivas. Um exemplo apontado no estudo são os macacos rhesus de Porto Rico, onde os machos que mantêm relações entre si conseguem formar coligações que aumentam o acesso a fêmeas e, consequentemente, a oportunidades reprodutivas.

A equipa analisou ainda fatores não genéticos que influenciam a expressão destes comportamentos, como o ambiente, a história de vida das espécies e a sua organização social. Os resultados indicam que o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo é mais frequente em espécies que vivem em ambientes hostis, com recursos alimentares limitados, ou sujeitas a elevado risco de predação, sugerindo que pode funcionar como um mecanismo de redução de tensões e promoção da coesão social.

O estudo revela também uma associação com o dimorfismo sexual acentuado — diferenças significativas de tamanho entre machos e fêmeas — comum em espécies que vivem em grupos sociais maiores, com forte competição e hierarquias rígidas, como os gorilas-das-montanhas. Pelo contrário, espécies com menor dimorfismo tendem a viver em pares ou pequenos grupos familiares.

Segundo os autores, estes fatores interligam-se, uma vez que as condições ambientais moldam as características do ciclo de vida e influenciam a complexidade social, favorecendo estratégias flexíveis de coesão do grupo.

Os investigadores admitem ainda que fatores semelhantes possam ter desempenhado um papel nos hominídeos ancestrais e, eventualmente, nos humanos modernos. Ainda assim, Vincent Savolainen ressalva que a complexidade da orientação e da preferência sexual humanas envolve aspetos exclusivos que não foram abordados neste estudo.

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