As réplicas do terramoto Epstein na Europa

As ondas de choque dos chamados “ficheiros Epstein” estão a provocar uma sucessão de crises políticas e institucionais um pouco por toda a Europa. As mensagens trocadas entre políticos, diplomatas e membros da realeza europeia e Jeffrey Epstein – o milionário norte-americano condenado por crimes sexuais que morreu na prisão em 2019 – vieram reacender polémicas antigas e abrir novas frentes de contestação pública.

Tudo começou a ganhar nova dimensão com a divulgação, no início deste mês, de uma série de documentos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América. Entre milhares de páginas, surgem trocas de mensagens, cartas e referências a figuras públicas europeias, num conjunto que ultrapassa os três milhões de documentos, imagens e vídeos.

Um dos casos mais explosivos envolve Peter Mandelson, antigo ministro britânico e atual embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos. Em julho de 2009, pouco depois de Epstein ter sido libertado da prisão onde cumprira pena por crimes de abuso de menores, o magnata enviou-lhe uma mensagem a anunciar que estava “livre e em casa”. A resposta – “Como vamos celebrar?” – tornou-se um dos símbolos da proximidade entre ambos.

Os ficheiros incluem ainda pedidos de Mandelson para ficar hospedado numa propriedade de Epstein nos EUA, uma carta em que o descreve como “melhor amigo” e emails em que o norte-americano o pressionava para alterar um imposto sobre lucros de banqueiros. A revelação destes contactos abalou o Governo liderado por Keir Starmer, que enfrentou críticas por manter no aparelho diplomático alguém com ligações tão próximas a Epstein. Mandelson acabaria por se demitir e desfiliar-se do Partido Trabalhista, decisão que não impediu novas saídas em Downing Street, incluindo elementos centrais da equipa do primeiro-ministro.

No plano da realeza britânica, os novos documentos tornaram ainda mais explícita a ligação do príncipe André a Epstein. O irmão de Carlos III já tinha perdido títulos e funções oficiais na sequência de revelações anteriores, mas as mensagens agora divulgadas, bem como fotografias comprometedoras onde surge ao lado de jovens mulheres e de Ghislaine Maxwell, reacenderam o debate público sobre o impacto do escândalo na monarquia.

Também Sarah Ferguson, ex-mulher de André, surge nos ficheiros com mensagens de agradecimento e elogio a Epstein, escritas já depois de este ter sido acusado de aliciar menores para prostituição. As declarações tornaram-se virais e voltaram a colocar a família real britânica sob escrutínio.

Na Noruega, a princesa herdeira Mette-Marit pediu desculpas públicas por ter mantido contactos com Epstein, admitindo um “erro de julgamento” e classificando a situação como “embaraçosa”. O caso surgiu num momento sensível, numa altura em que se discute o futuro da monarquia norueguesa. Ainda naquele país, o ex-primeiro-ministro Thorbjorn Jagland viu o seu apartamento ser alvo de buscas por suspeitas relacionadas com viagens alegadamente pagas por Epstein, enquanto a diplomata Mona Juul foi suspensa no âmbito de investigações às suas ligações económicas ao norte-americano.

Em França, o antigo ministro da Cultura Jack Lang demitiu-se da presidência do Instituto do Mundo Árabe após a abertura de um inquérito por suspeitas de branqueamento de capitais. O seu nome surge centenas de vezes nos documentos, num contexto que envolve um fundo sediado nas Ilhas Virgens Britânicas, alegadamente detido pela sua filha em conjunto com Epstein. Também o diplomata francês Fabrice Aidan é referido nos papéis revelados.

Na Eslováquia, Miroslav Lajcák, conselheiro de segurança nacional do primeiro-ministro Robert Fico, deixou funções depois de serem divulgadas mensagens trocadas com Epstein em 2018, quando era ministro dos Negócios Estrangeiros. Parte do conteúdo, incluindo comentários sobre mulheres e fotografias trocadas entre ambos, veio a público, agravando a pressão política.

Portugal surge apenas de forma residual nos milhões de páginas analisadas. Há referência a pelo menos duas estadas e viagens pagas por Epstein a vítimas em território nacional. O nome de Luís Amado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, é mencionado como participante numa conferência internacional onde Epstein também estaria presente. À SIC, o ex-governante português afirmou nunca ter visto o norte-americano “na vida”.

Embora a simples presença de um nome nos ficheiros não constitua prova de envolvimento na rede de tráfico sexual liderada por Jeffrey Epstein, o impacto político e reputacional das revelações tem sido imediato. Entre demissões, pedidos de desculpa públicos e investigações judiciais em curso, o escândalo continua a produzir réplicas que atravessam fronteiras e abalam instituições no coração da Europa.

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