A administração autónoma curda da Síria anunciou esta terça-feira a suspensão do acordo de cessar-fogo com o Governo sírio, alegando a continuação de ataques por parte de Damasco e a recusa em avançar para um diálogo político.
“Dado que não há cessar-fogo neste momento, que Damasco continua a atacar as nossas regiões e que [o poder] se recusa a encetar um diálogo, o acordo já não é válido”, afirmou Elham Ahmad, responsável curda, durante uma conferência ‘online’.
A dirigente revelou ainda que representantes israelitas iniciaram contactos com os curdos, sublinhando que a administração autónoma está disponível para receber apoio, caso esses contactos se concretizem.
Entretanto, o exército sírio acusou as Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelos curdos, de se terem retirado do campo de Al-Hol, no nordeste do país, onde se encontram detidos milhares de familiares de combatentes do grupo extremista Estado Islâmico (EI). As FDS negaram a acusação, referindo confrontos nos arredores do campo e afirmando que foram “obrigadas a retirar-se”.
Em comunicado, as forças curdas indicaram que irão reposicionar-se nos arredores das cidades do norte da Síria sob ameaça do exército governamental, acusando a comunidade internacional de não assumir as suas responsabilidades.
O campo de Al-Hol é o maior da zona sob controlo curdo e alberga cerca de 27 mil pessoas, incluindo 15 mil sírios e aproximadamente 6.300 mulheres e crianças estrangeiras de 42 nacionalidades.
O Ministério da Defesa sírio rejeitou “veementemente” o que classificou como exploração de detidos como instrumentos de negociação política por parte da liderança das FDS, reiterando o apelo para que seja cumprido o acordo de 18 de janeiro. No mesmo comunicado, garantiu que as forças governamentais não entrarão em cidades e aldeias curdas e manifestou disponibilidade para assumir o controlo do campo de Al-Hol e de outras instalações de detenção do EI.
Horas antes, um responsável curdo confirmou à agência France-Presse que as negociações entre a administração autónoma e o Governo central “fracassaram completamente”. O encontro entre o líder curdo Mazloum Abdi e o Presidente interino sírio, Ahmad al-Sharaa, realizado na noite de segunda-feira em Damasco, tinha como objetivo discutir a implementação do acordo anunciado no domingo, que previa um cessar-fogo e a integração das estruturas civis e militares curdas no Estado sírio.
Segundo Abdel Karim Omar, representante da administração curda em Damasco, a única exigência das autoridades sírias foi a “rendição incondicional”, levando os curdos a apelar à comunidade internacional para assumir uma “posição firme e decisiva”.
Após o anúncio do acordo, o exército sírio foi mobilizado para várias zonas do leste e do norte do país, nomeadamente nas províncias de Raqqa e Deir ez-Zor. Durante a guerra civil síria, entre 2011 e 2024, os curdos estabeleceram uma região autónoma no norte e nordeste da Síria.
Entretanto, as Forças Democráticas Sírias apelaram aos jovens curdos, dentro e fora do país, para se juntarem às “fileiras da resistência”.

