O que deveria ser um detalhe técnico acabou por expor um embaraçoso retrato de desorganização na gestão de um dos maiores eventos de Vila Nova de Poiares. A Poiartes, frequentemente apresentada pela autarquia como uma das grandes montras económicas e culturais do concelho, é assumida formalmente pelo executivo municipal e pelo presidente da Câmara, Nuno Neves. No entanto, o domínio oficial associado ao certame na internet não está sob controlo do município — e surge atualmente com a indicação de que está à venda.
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A contradição resulta de documentos oficiais do próprio município. Na minuta da Ata n.º 9/2026, a Câmara deliberou aprovar a constituição da Comissão Organizadora da POIARTES 2026, estabelecendo que a apreciação de candidaturas e decisões relacionadas com o evento se inserem na esfera de responsabilidade do presidente da autarquia.
Ou seja, do ponto de vista político e administrativo, a organização do certame é assumida como matéria central do executivo municipal.
Mas quando se passa da ata para a realidade digital, o cenário é inesperado: quem tenta aceder ao domínio poiartes.pt encontra apenas uma página simples com a mensagem de que o domínio está disponível para venda.

Um ativo digital fora do controlo do município
A consulta pública ao registo do domínio mostra que o mesmo não está registado em nome da Câmara Municipal nem de qualquer entidade pública ligada à organização do evento. O titular é uma empresa privada externa ao município.
Isto significa que um elemento básico da presença digital do evento — o endereço que identifica o certame na internet — não pertence à autarquia que o promove.
Num cenário extremo, o domínio pode ser adquirido por terceiros e utilizado para fins completamente alheios ao evento.
Especialistas em comunicação institucional sublinham que, em eventos promovidos ou organizados por entidades públicas, a prática normal é que os domínios e infraestruturas digitais fiquem registados diretamente em nome da instituição organizadora, precisamente para evitar dependências externas ou perda de controlo sobre ativos estratégicos.

A feira que a Câmara organiza… mas não controla
A POIARTES é frequentemente apresentada como um dos grandes momentos do calendário local, reunindo expositores, artesãos, empresas e visitantes de toda a região. A própria Câmara discute em reunião oficial a sua organização, logística e funcionamento.
Mas enquanto o executivo municipal aprova comissões organizadoras e define responsabilidades políticas para o certame, o domínio que identifica a feira na internet encontra-se registado fora da esfera do município e publicamente anunciado como estando disponível para venda.
A situação levanta uma pergunta inevitável: como é que um dos maiores eventos promovidos pelo município não tem sequer o controlo do seu próprio endereço na internet?
Um sinal preocupante de gestão
Num contexto em que a comunicação digital é hoje uma ferramenta central para promover território, atrair visitantes e divulgar iniciativas, a gestão de ativos digitais básicos — como domínios e plataformas web — deixou há muito de ser um detalhe técnico.
Perder ou nunca ter assegurado o controlo do domínio de um evento municipal pode parecer um episódio menor. Mas quando esse mesmo domínio aparece à venda enquanto a Câmara assume formalmente a organização do certame, o episódio acaba por expor uma falha difícil de justificar.
Para um evento que a própria autarquia apresenta como um dos cartões-de-visita do concelho, a pergunta permanece: quem controla afinal a presença digital da POIARTES?

