A 5.ª Mostra Nacional de Doçaria Conventual abriu este sábado as portas do Mosteiro de Lorvão, em Penacova. Entre receitas preservadas ao longo de gerações, produtores de vários pontos do país e uma Bienal de Música que tira partido de um órgão único na Península Ibérica, Lorvão transforma-se num grande palco da cultura portuguesa. Álvaro Coimbra acredita que milhares de pessoas poderão passar pelo evento durante o fim de semana prolongado.
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Há lugares onde um doce é muito mais do que açúcar, ovos e amêndoa. É memória. É uma receita transmitida entre gerações, um saber guardado durante décadas ou séculos e uma pequena parte da história de uma comunidade.
Durante este fim de semana, essa memória voltou a ocupar os claustros do Mosteiro de Lorvão.
A 5.ª Mostra Nacional de Doçaria Conventual foi inaugurada este sábado, 3 de outubro, em Penacova, reunindo naquele monumento produtores e tradições provenientes de diferentes regiões portuguesas. E dificilmente poderia existir cenário mais apropriado.
Entre paredes carregadas de história, os visitantes encontram doces conventuais, receitas tradicionais, licores de inspiração monástica e produtos artesanais que transportam consigo histórias muito anteriores às gerações que hoje os confecionam.
Mas esta não é apenas uma feira onde se vai comprar ou provar doces. É precisamente aí que Lorvão procura marcar a diferença.
É uma celebração do património, da gastronomia e da cultura, construída em torno do próprio Mosteiro e da história que permanece dentro das suas paredes.
Um monumento que não serve apenas de cenário
Para o presidente da Câmara Municipal de Penacova, Álvaro Coimbra, essa ligação é essencial para compreender o evento.
“É sobretudo um evento que pretende mostrar a beleza deste monumento nacional, destes claustros e, ao mesmo tempo que mostramos e damos visibilidade a este património, estamos também a valorizar a doçaria conventual”, afirma.
A escolha de Lorvão não é, portanto, circunstancial. A tradição conventual faz parte da identidade do lugar e a Mostra procura recuperar essa ligação, trazendo-a para o presente.
O resultado é uma experiência em que espaço e produto dificilmente podem ser separados. Percorrer a Mostra significa também percorrer o Mosteiro, observar os claustros e descobrir um património que ganha uma dinâmica diferente quando volta a receber pessoas.
E essas pessoas chegam de vários pontos do país.
Também os expositores representam diferentes geografias e tradições. Segundo Álvaro Coimbra, a procura para participar tem crescido e é já superior à capacidade física disponível.
“Temos vindo a ter muita procura por parte de doceiros e pasteleiros do país inteiro que querem estar nesta mostra. Os lugares são limitados porque os claustros também não dão para uma lotação de muitas dezenas de expositores”, explica.
Uma limitação que acaba também por preservar a escala e o ambiente particular do certame.
Para o autarca, cinco edições foram suficientes para a iniciativa começar a afirmar uma identidade própria no panorama nacional.
“Estamos muito satisfeitos com a aceitação e com o feedback que tem tido e acho que já temos um lugar marcado nos eventos de doçaria conventual do país.”


Quando a doçaria encontra a música
Há, porém, outro elemento que torna estes dias particularmente especiais.
Ao aroma dos doces que ocupa os claustros junta-se a música.
A Mostra decorre em articulação com a 3.ª Bienal de Música do Mosteiro de Lorvão, numa combinação pensada para explorar outra das grandes riquezas existentes no monumento: o seu património musical.
No centro dessa ligação está um instrumento extraordinário: o histórico órgão de tubos de dupla face do Mosteiro de Lorvão.
Álvaro Coimbra destaca a singularidade do instrumento, que identifica como único na Península Ibérica e que, além do seu valor patrimonial, permanece funcional e é tocado regularmente.
Foi também essa riqueza que levou o Município a juntar os dois acontecimentos.
“Resolvemos juntar à Mostra de Doçaria uma Bienal de Música no Mosteiro, aproveitando o nosso fantástico órgão de tubos de dupla face, que é único na Península Ibérica e está em muito bom estado”, explica.
A Bienal não fica limitada aos dias da Mostra. A programação musical prolonga-se por todo o mês de outubro, reunindo diferentes géneros, nomes reconhecidos e também músicos, coros e grupos da região.
“Concertos durante todo o mês de outubro, com nomes conhecidos da música erudita e não só, com vários estilos e géneros de música, valorizando também os nossos grupos locais, os nossos coros e os nossos instrumentistas”, sublinha o presidente da Câmara.
É essa conjugação que leva Álvaro Coimbra a resumir a ambição destes dias numa expressão particularmente feliz: fazer de Lorvão “o epicentro da cultura”.
E, neste fim de semana, a expressão ganha sentido.
A programação deste sábado incluiu o “Diálogo Sonoro”, concerto comentado por Paulo Bernardino, e uma palestra de João Vaz dedicada precisamente ao órgão histórico do Mosteiro de Lorvão e ao advento da organaria portuguesa de 1800. À noite, a música regressou com um Encontro Internacional de Coros.



Sabores que contam histórias
Por entre os expositores percebe-se, entretanto, que falar de doçaria conventual é falar de diferenças.
Mesmo quando os ingredientes parecem simples ou as receitas apresentam pontos em comum, a confeção artesanal continua a fazer de cada produto algo particular.
Uma das doceiras presentes em Lorvão explica-o de forma simples: “A diferença está mesmo na forma de a confecionar, porque isto é confeção caseira, é artesanal.”
E talvez seja essa uma das razões pelas quais eventos desta natureza continuam a despertar curiosidade.
Não se trata apenas de consumir um produto. Quem prova está, muitas vezes sem perceber, a experimentar uma receita cuja origem atravessou diferentes épocas e que conseguiu sobreviver num mundo onde a produção alimentar é cada vez mais industrializada.
Há doces que não encontram equivalente direto noutras regiões. Há técnicas próprias, diferentes equilíbrios de sabores e pequenas particularidades na confeção que permanecem associadas ao lugar onde nasceram.
“Não há nada que se possa comparar”, explica uma das participantes quando questionada sobre aquilo que distingue um dos doces apresentados.
A própria Mostra torna-se, assim, uma espécie de mapa gastronómico de Portugal, concentrado durante alguns dias dentro dos claustros de Lorvão.
E nem tudo passa exclusivamente pelos doces.
Entre as propostas encontram-se também licores cuja origem remonta a antigas receitas associadas ao universo monástico. Um dos expositores explicou que a receita que apresenta nasceu de uma preparação centenária feita a partir de ervas, aguardente e mel. A fórmula foi posteriormente trabalhada, reduzindo o teor alcoólico e dando origem a diferentes sabores.
No meio da intensidade açucarada da doçaria, o licor assume até outra função.
“É um corta-sabores”, explica o produtor. “Temos os doces, que são açucarados, e depois temos aqui os licores, que dão para limpar um bocadinho a boca e provar outro tipo de sabores mais frescos.”
São pequenos encontros entre produtos e tradições diferentes que ajudam a explicar o carácter nacional da Mostra.



Preservar hoje aquilo que poderá desaparecer amanhã
Por detrás das bancas existe, contudo, uma questão mais profunda.
A doçaria conventual sobrevive porque alguém continua a confecioná-la.
Receitas antigas podem estar escritas, mas técnicas, pontos de açúcar, texturas, tempos de preparação e pequenos segredos dificilmente sobrevivem apenas num papel. Precisam de continuar a ser praticados.
É por isso que uma das frases ouvidas entre os participantes resume talvez melhor do que qualquer discurso institucional a importância deste tipo de iniciativa:
“Há tradições que não se podem esquecer.”
A Mostra Nacional de Doçaria Conventual funciona também como espaço de transmissão dessa memória.
Uma das produtoras locais destaca precisamente essa dimensão quando fala do significado do certame para Penacova.
“Vem promover o Mosteiro, vem promover a sua envolvência, as receitas de antigamente. Portanto, tudo tem a ver com um bocadinho de história.”
E é essa história que deixa de estar apenas nos livros para poder ser vista, cheirada e provada.
Penacova quer visitantes durante todo o ano
A aposta tem igualmente uma dimensão económica e turística assumida pelo Município.
Para Álvaro Coimbra, eventos como este integram uma estratégia destinada a trazer visitantes ao concelho para além dos períodos tradicionalmente associados a maior procura turística.
“Os eventos fazem parte da estratégia de desenvolvimento turístico de qualquer território”, sustenta.
O objetivo é reduzir a sazonalidade e criar razões para visitar Penacova em diferentes momentos do calendário.
“Atrair visitantes faz parte da nossa estratégia de desenvolver, não só no verão, mas ao longo de todo o ano, eventos que possam trazer visitantes e mais turistas à nossa região.”
Quanto à afluência esperada durante esta edição, o presidente da Câmara evita estabelecer números rigorosos. A meteorologia tem influência significativa num evento desta natureza e as previsões para o fim de semana são instáveis.
Mas existe uma referência: nos melhores anos, são milhares os visitantes.
E 2026 tem uma circunstância favorável. O feriado de 5 de Outubro proporciona um fim de semana prolongado e aumenta a expectativa da organização.
“A nossa expectativa é que sejam milhares de pessoas que nos visitem nestes três dias”, afirma Álvaro Coimbra, esperando mesmo superar os números de edições anteriores.



Ainda há muito para ver e ouvir em Lorvão
A programação continua este domingo, com uma oficina de recriação da manufatura do palito, dinamizada pelo Grupo Etnográfico de Lorvão, seguindo-se a palestra “Saberes seculares. As técnicas, os preceitos e os segredos culinários mais antigos da Doçaria Portuguesa”, por João Pedro Gomes.
Às 17h00 realiza-se mais um workshop de doçaria e, às 18h00, Mário Laginha apresenta um concerto de piano, num dos momentos de maior destaque deste fim de semana.
Na segunda-feira, 5 de outubro, haverá uma oficina de doçaria e o lançamento do bombom conventual “Pecado do Convento”, seguindo-se a palestra “Esculpir o açúcar: A dimensão plástica e estética da doçaria conventual”, por Paula Barata Dias.
A programação encerra às 18h00 com “Aurora”, concerto coral-sinfónico com o Coro Vox et Communio, o Coro Misto da Universidade de Coimbra e a Associação de Saxofones do Dão.
Durante os três dias existem ainda oficinas criativas, cinema destinado às crianças e espaço de leitura. A entrada é livre.
Mas quem atravessa as portas do Mosteiro de Lorvão neste fim de semana encontra algo que dificilmente cabe num programa.
Encontra um monumento novamente vivido.
Os claustros deixam por algumas horas de ser apenas testemunhas de séculos passados. Enchem-se de pessoas, conversas, música e aromas. Receitas antigas voltam às mesas. O órgão volta a lembrar que o património também se escuta. E saberes que poderiam perder-se encontram novos públicos.
No fundo, é essa a força da Mostra Nacional de Doçaria Conventual: não se limita a recordar o passado. Faz com que ele volte a acontecer.

