O Centro Social de Agadão atravessa a mais grave crise desde a sua fundação, estando atualmente numa situação-limite que ameaça trabalhadores, utentes e a continuidade de uma resposta social essencial numa das zonas mais isoladas do concelho de Águeda. O mandato da atual direção terminou oficialmente em finais de 2025, sem que tenha sido ainda garantida a eleição de uma nova equipa dirigente, deixando a instituição num vazio legal e operacional de alto risco.
Em declarações exclusivas à TVC / Notícias de Águeda, a presidente cessante, Anabela Martins, confirma o esgotamento total e admite que este é, de facto, o seu último dia em funções.
“Hoje é mesmo o último dia. Psicologicamente e em termos de saúde, não consigo mais”, afirmou, relatando cinco anos de dedicação absoluta à instituição. “Deixei a minha família, deixei o meu filho várias vezes. Houve noites em que me ligavam às duas ou três da manhã e eu levantava-me da cama e ia para o lar. Isto foi um acumular de situações.”
A dirigente explica que a atual direção se manteve apenas em gestão corrente após o termo do mandato, na tentativa de viabilizar uma nova lista, mas admite que, caso isso não aconteça, a situação torna-se rapidamente crítica.
“Se não houver direção, fica tudo bloqueado. Não pode haver movimentos, não pode haver pagamentos”, alertou, sublinhando que, embora neste momento salários e encargos estejam regularizados, a ausência de direção pode impedir o pagamento de salários num prazo muito curto.
A dimensão social do problema é profunda. O Centro Social de Agadão conta com mais de 10 trabalhadores, assegura 18 utentes em regime de lar e presta ainda apoio domiciliário a cerca de 10 a 11 pessoas, garantindo cuidados básicos, alimentação e acompanhamento diário a dezenas de idosos numa região marcada pelo envelhecimento, isolamento territorial e fracas acessibilidades. O encerramento ou paralisação da instituição teria consequências sociais devastadoras.
Mas o problema não se esgota na ausência de liderança.
Segundo informação recolhida junto de intervenientes diretamente ligados ao processo, a situação financeira é descrita como “muito grave” e estruturalmente insustentável. A instituição acumula prejuízos anuais sucessivos, que têm sido absorvidos contabilisticamente através de resultados transitados negativos, mascarando uma realidade financeira que continua a agravar-se ano após ano.

De acordo com esses dados, o passivo global poderá já ultrapassar um milhão de euros, considerando dívida bancária, fornecedores, outros credores e empréstimos garantidos por fiadores externos que estão a assumir encargos porque o lar não tem capacidade para os pagar. Embora Anabela Martins não confirme um valor exato, admite que o montante é “muito considerável” e reconhece que poderá não estar longe desse patamar.
A crise é agravada por fortes suspeitas de falta de transparência na gestão passada, com referências à existência de um núcleo restrito onde as mesmas pessoas surgem ligadas simultaneamente ao lar, à fábrica da igreja e à junta de freguesia. Esta sobreposição de funções levanta sérias dúvidas quanto à separação de responsabilidades e à clareza dos processos decisórios. Há ainda referências a verbas prometidas, nomeadamente associadas à Igreja, que nunca chegaram à instituição.
“Foram promessas. Mas não há nada em concreto. Até hoje não chegou nada ao Centro Social”, confirmou a presidente cessante.
A situação interna é descrita como confusa, tensa e desgastante, com informação alegadamente escondida e uma instituição a caminhar para um ponto de rutura. Apesar disso, pessoas próximas do processo sublinham que o lar não pode fechar, quer pela sua importância social, quer pelo impacto humano que isso teria. Há relatos de um forte envolvimento emocional de antigos responsáveis e membros da comunidade, recordando o papel decisivo do lar no apoio a famílias em momentos críticos, incluindo durante a pandemia.
Esta segunda-feira poderá ser decisiva. Está prevista uma assembleia com o objetivo de tentar eleger uma nova direção. Caso falhe, o Centro Social de Agadão entra formalmente num vazio de governação, com risco real de bloqueio financeiro, incumprimentos salariais e colapso funcional.
O alerta é claro e transversal: sem uma nova direção, sem transparência total e sem um plano sério de reestruturação financeira, o Lar de Agadão pode entrar numa crise irreversível, colocando em causa trabalhadores, utentes e uma das mais importantes respostas sociais do interior do concelho de Águeda.
