Portugal não é, para já, um inimigo prioritário do Irão, mas pode enfrentar riscos indiretos no atual contexto de escalada no Médio Oriente, defendem especialistas ouvidos pela Euronews.
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A tensão intensificou-se após a operação militar designada “Fúria Épica”, iniciada a 28 de fevereiro, no âmbito de ações conjuntas de Israel e dos Estados Unidos contra a República Islâmica do Irão. Teerão advertiu que todos os locais envolvidos nas operações seriam considerados “alvos legítimos”, declaração que pode abranger infraestruturas utilizadas pelos norte-americanos, como a Base das Lajes, nos Açores.
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, afirmou na televisão estatal que as forças armadas iranianas consideram como alvos legítimos os locais de onde foram conduzidas operações contra o Irão.
Risco de ataque direto considerado remoto
Para João Annes, do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, Portugal deve encarar com prudência a retórica iraniana, mas um ataque direto é pouco plausível.
“Em termos de risco de ataque cinético, com mísseis ou drones diretamente a partir do Irão, isso não é plausível nem credível”, sustenta, apontando a distância geográfica e a inexistência de contencioso bilateral direto como fatores dissuasores.
Ainda assim, o especialista alerta para a possibilidade de “ameaças híbridas”, nomeadamente através do recurso a proxies — como organizações criminosas locais —, instrumentalização mediática e política, e ciberataques. Segundo João Annes, o ciberespaço é um dos vetores onde o Irão mantém capacidades ativas, incluindo espionagem e ações de desestabilização.
O analista recorda também precedentes no Reino Unido e na Alemanha, onde as autoridades detetaram alegadas tentativas de ligação do regime iraniano a organizações criminosas para promover ataques contra interesses judaicos.
Ameaça terrorista “não é novidade”
João Annes sublinha que a ameaça terrorista associada ao Irão não é recente. “Existe desde 1979 e não seria uma novidade”, afirma, considerando que as forças de segurança nacionais e europeias estarão a acompanhar de perto eventuais movimentações.
Na sua perspetiva, Portugal continua a ser um alvo não prioritário, ainda que, enquanto membro da NATO e da União Europeia, permaneça potencialmente exposto a riscos. O reforço das capacidades de prevenção e da resposta em matéria de cibersegurança surge como recomendação principal.
Diplomacia sob escrutínio
A utilização da Base das Lajes pelos Estados Unidos reacendeu o debate político. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, confirmou que o Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos, assinado em 1995, prevê autorizações tácitas para a utilização da infraestrutura, dentro dos termos estabelecidos.
Em contraste, Espanha recusou a utilização das bases de Rota e Morón para ações militares no Irão, defendendo enquadramento no Direito Internacional.
Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais na Universidade Lusíada do Porto, considera que a posição portuguesa pode fragilizar a imagem externa do país. Para o académico, o apoio político a uma ação militar unilateral pode afetar a perceção de neutralidade da diplomacia portuguesa e ter impactos futuros, nomeadamente em votações no Conselho de Segurança da ONU ou em relações com países do mundo árabe.
Apesar de não antecipar consequências imediatas, o professor admite que, a médio prazo, poderão surgir efeitos económicos ou diplomáticos, recordando o embargo petrolífero aplicado a Portugal após a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Para já, os especialistas convergem numa ideia: Portugal não é um alvo prioritário do Irão, mas o contexto internacional aconselha vigilância e reforço das capacidades de prevenção.

